ESTAREMOS AQUI PARA SEMPRE

Janaina Torres Galeria 

Curadoria: Daniel Rangel *

Agosto de 2019

 

A trajetória artística de Stephan Doitschinoff, marcada por profundas imersões cíclicas, está vinculada às experiências pessoais vividas desde sua infância. Uma obra com influências formais da pop art e do surrealismo, que é estruturada por um vocabulário singular.

 

 

Stephan recorre a um léxico iconográfico particular inspirado em símbolos históricos, religiosos, políticos, filosóficos e ambientais, para conceber desenhos, pinturas, esculturas e instalações. Uma escrita visual carregada de significados criptografados por meio de uma literatura imagética fantástica acerca da contemporaneidade.

 

 

Desde 2013, o artista não realiza uma exposição individual em São Paulo. Ao longo dos últimos anos, participou de coletivas no Brasil e no exterior, como a Bienal de Curitiba, em 2015, e “As Above, So Below. Portals, visions, spirits and mystics”, em 2017, no Irish Museum of Modern Art, na Irlanda, ambas com temas relacionados à espiritualidade.

 

 

A temática religiosa foi, provavelmente, a mais explorada ao longo da história da arte. Por séculos, os escritos sagrados eram a única válvula de escape para a criação artística além da busca pela reprodução fidedigna da realidade.  Na cena contemporânea, após passar um tempo marginalizado, o tema volta, aos poucos, a vir à tona na produção de artistas expoentes.

 

 

No passado, além da abordagem religiosa, havia uma relação entre arte, alquimia e religião, consideradas mágicas e capazes de transformar a realidade. O pintor holandês Piet Mondrian, conhecido pela relação com a teosofia de Madame Blavatsky, dizia escutar “um som interior (Inner clunk)”, enquanto pintava. Antes dele, a produção não-figurativa da sueca Hilma Af Klint, figura hoje considerada seminal para o movimento abstrato, estava atrelada a um espírito que a artista incorporava.

 

 

No Brasil, podemos destacar o trabalho de alguns artistas alquimistas, cujas obras perpassam por uma temática energética que se desdobram em pesquisas poéticas individuais potentes. Uma parte destes resgata questões ancestrais com olhares contemporâneos, sobretudo ligados à religião africana, como Ayrson Heráclito, Tiago Santana, Moisés Patrício, Nádia Taquari e Ana Beatriz Almeida. Outros produzem obras misteriosas, carregadas de referências diversas ressignificadas por códigos próprios, a exemplo de Artur Bispo do Rosário, Tunga, Bene Fonteles, Ernesto Neto e do próprio Stephan.

 

 

Atualmente, esta relação vem acompanhada de outras questões vinculadas ao momento presente. O lugar de fala, a intolerância religiosa, a situação política, os direitos humanos, o meio-ambiente, a diversidade de gêneros e as novas mídias sociais da internet são alguns destes temas. Stephan se coloca como um filósofo visual observando os movimentos planetários e sugerindo caminhos por meio de suas obras semânticas, para que ele e outros possam tentar trilhá-los algum dia.

 

 

A mostra “Estaremos Aqui Para Sempre” apresenta um recorte pontual das distintas séries que o artista vem desenvolvendo nos últimos anos. Além dos temas religiosos e ligados à espiritualidade, presentes desde o início de sua trajetória, as obras aqui apresentadas incorporaram questões políticas, filosóficas e ambientais. Assuntos emergentes das últimas décadas, como o consumismo de massa e a preservação da natureza, são tratados simultaneamente com temáticas bem mais atuais, como a pós-verdade e o poder de manipulação das religiões. Um amálgama que coloca o espectador diante de um conjunto de informações que parecem inalcançáveis, assim como “as escadas que levam ao céu”, um dos ícones recorrentes em suas obras.

 

 

A produção de Stephan Doitschinoff definitivamente não está atrelada somente ao momento contemporâneo, conecta-se também ao passado e ao futuro. Temas, estilos e processos presentes na história da arte cruzam com estratégias da internet e das religiões fundamentalistas. Um trabalho formalmente potente, cercado de mistérios e segredos de um artista-alquimista, cuja obra é um testamento pessoal e ao mesmo tempo universal, sem lugar ou tempo definidos, para sempre e aqui.

 

Estaremos Aqui Para Sempre

Texto de Daniel Rangel

 

Daniel Rangel é curador e mestre em artes visuais pela USP

 

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